Mulheres na Agroecologia: resistências e respostas frente à mineração e ao uso de agrotóxicos na Zona da Mata de Minas Gerais

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Universidade Federal de Viçosa

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A tese analisa conflitos socioambientais na Zona da Mata mineira, território com forte presença da agricultura familiar e reconhecido por uma Rede de Agroecologia de cerca de quatro décadas. Apesar disso, a região é também a segunda maior produtora mundial de café arábica como commodity e concentra a segunda maior reserva de bauxita do país, tornando-se alvo estratégico de empresas mineradoras. A partir de 2020, com a alta do preço do café e incentivos governamentais à mineração, aumentam as pressões do modelo extrativista industrial, que se manifesta num continuum de violências: desde ameaças às lideranças até formas mais invisibilizadas que atravessam o cotidiano das comunidades, afetando especialmente as mulheres. Adotando uma perspectiva sobre masculinidades, a pesquisa investiga relações de poder entre homens e mulheres e entre diferentes grupos masculinos (agricultores, técnicos, agentes financeiros, comerciantes de insumos, representantes de empresas, atravessadores) em territórios ameaçados pela mineração e pelo uso intensivo de agrotóxicos no cultivo do café. O modelo de produção do extrativismo industrial articula escalas diversas de poder, desde a intrafamiliar às dinâmicas globais que regulam os preços das commodities. As indústrias de agrotóxicos instrumentalizam papéis de gênero ao reforçar atributos da masculinidade hegemônica e o papel do homem como provedor, subordinando mulheres, seus saberes e a natureza à lógica capitalista. A expansão da agricultura de commodities aprofunda a mercantilização da vida comunitária e intensifica desigualdades de gênero, criando condições favoráveis à entrada de projetos extrativistas, como a mineração, frequentemente legitimados pela promessa de emprego e renda masculina. Assim, agronegócio e mineração operam articuladamente, impulsionando um processo de (re)patriarcalização do território que limita a autonomia de mulheres e comunidades tradicionais. Em contraponto, agricultoras produzem novas escalas de disputa ao politizar impactos dos agrotóxicos e sementes transgênicas e ao visibilizar resistências cotidianas – muitas vezes no espaço doméstico e em práticas pouco reconhecidas publicamente. Por meio de sistemas agroecológicos diversificados e manejo multiespécies em quintais, hortas e áreas abandonadas, tensionam a racionalidade da agricultura “moderna”, defendendo a centralidade da produção de alimentos, biodiversidade e “bonitezas”. Enquanto a lavoura de café, geralmente responsabilidade masculina, tende à simplificação produtiva e à valorização do saber técnico-científico, as agricultoras promovem resistências graduais que preservam saberes empíricos e diversidade. A tese conclui que os conflitos socioambientais refletem disputas mais amplas sobre a produção do território e a organização das relações de gênero, nas quais o modelo extrativista atua tanto sobre a materialidade do espaço quanto sobre subjetividades, reforçando hierarquias de poder. A agroecologia, praticada por agricultoras e alguns agricultores, surge como campo político e ontológico de disputa, onde saberes, práticas e afetos contestam a mercantilização da vida e a reprodução de masculinidades hegemônicas. Contudo, esses processos têm contradições e limites internos, exigindo compreensão da agroecologia como fenômeno relacional, histórico e situado. A principal contribuição do trabalho é articular gênero, território e agroecologia como dimensões indissociáveis para compreender criticamente a reprodução das desigualdades e as possibilidades concretas de transformação socioambiental nos territórios em disputa. Palavras-chave: conflitos socioambientais; gênero; agroecologia; mineração; agrotóxicos
This thesis analyzes socio-environmental conflicts in the Zona da Mata region of Minas Gerais, an area with a strong presence of family farming and recognized by an Agroecology Network for nearly four decades. Despite this, the region is also the world’s second-largest producer of Arabica coffee as a commodity and holds the country’s second-largest bauxite reserves, making it a strategic target for mining companies. Starting in 2020, with rising coffee prices and government incentives for mining, pressures from the industrial extractivist model have increased, manifesting in a continuum of violence: ranging from threats against community leaders to more invisible forms that permeate the daily lives of communities, affecting women in particular. Adopting a perspective on masculinities, this research investigates power relations between men and women and among different male groups (farmers, technicians, financial agents, input traders, company representatives, middlemen) in territories threatened by mining and the intensive use of pesticides in coffee cultivation. The industrial extractive production model articulates diverse scales of power, ranging from intra-family dynamics to global dynamics that regulate commodity prices. The pesticide industries instrumentalize gender roles by reinforcing attributes of hegemonic masculinity and the role of men as providers, subordinating women, their knowledge, and nature to capitalist logic. The expansion of commodity agriculture deepens the commodification of community life and intensifies gender inequalities, creating conditions conducive to the arrival of extractive projects, such as mining, which are often legitimized by the promise of male employment and income. Thus, agribusiness and mining operate in tandem, driving a process of (re)patriarchalization of the territory that limits the autonomy of women and traditional communities. In contrast, women farmers create new levels of resistance by politicizing the impacts of pesticides and genetically modified seeds and by making everyday acts of resistance visible—often within the domestic sphere and through practices that receive little public recognition. Through diversified agroecological systems and multi-species management in backyards, vegetable gardens, and abandoned areas, they challenge the rationality of “modern” agriculture, defending the centrality of food production, biodiversity, and “ornaments.” While coffee farming, generally a male responsibility, tends toward production simplification and the prioritization of technical-scientific knowledge, women farmers promote gradual forms of resistance that preserve empirical knowledge and diversity. The thesis concludes that socio-environmental conflicts reflect broader disputes over the production of territory and the organization of gender relations, in which the extractivist model acts upon both the materiality of space and subjectivities, reinforcing power hierarchies. Agroecology, practiced by women farmers and some men farmers, emerges as a political and ontological field of dispute, where knowledge, practices, and affect challenge the commodification of life and the reproduction of hegemonic masculinities. However, these processes have internal contradictions and limits, requiring an understanding of agroecology as a relational, historical, and situated phenomenon. The main contribution of this work is to articulate gender, territory, and agroecology as inseparable dimensions for critically understanding the reproduction of inequalities and the concrete possibilities for socio-environmental transformation in contested territories. Keywords: socio-environmental conflicts; gender; agroecology; mining; pesticides

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TELLES, Liliam. Mulheres na Agroecologia: resistências e respostas frente à mineração e ao uso de agrotóxicos na Zona da Mata de Minas Gerais. 2025. 205 f. Tese (Doutorado em Extensão Rural) - Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. 2025.

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