Face oculta?: (de)colonialidade nas cerimônias de abertura dos Jogos Pan-Americanos (2007-2023)

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Universidade Federal de Viçosa

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Introdução: É emergente entre intelectuais da América Latina a perspectiva da colonialidade, que analisa a dominação eurocêntrica/estadunidense sobre o sistema- mundo, constituído a partir de processos evidenciados na modernidade e que repercute no campo social contemporâneo. O esporte e eventos como os Jogos Olímpicos e os Jogos Pan-Americanos são produto das transformações e lógicas do período moderno e desdobram-se em acontecimentos que extrapolam a competição esportiva em si, mobilizando processos sociais, culturais, políticos e simbólicos mais amplos. Dentre os componentes constitutivos destes megaeventos esportivos, as cerimônias de abertura servem como microcosmos que produzem sentidos e representações da vida social e oferecem multifaces de investigação das complexidades dos fenômenos esportivos. Diante disso, o presente estudo teve por objetivo examinar narrativas e representações de colonialidade e decolonialidade nas cerimônias de abertura dos Jogos Pan-Americanos (Pan) de 2007 a 2023. Metodologia: As cerimônias de abertura do Pan foram acessadas a partir de arquivos audiovisuais de acesso gratuito. A catalogação dos dados considerou os protocolos, as apresentações artísticas e culturais, os elementos rituais e simbólicos das cerimônias. Com base no paradigma indiciário de Ginzburg, investigou-se indícios de colonialidade e decolonialidade presentes nas cerimônias, os quais foram examinados a partir da teoria decolonial. Resultados e discussões: Os dados foram sistematizados a partir de quatro dimensões: Formações simbólicas de integração, harmonia e união; Indícios de pacificidade, hierarquização e narrativas de legitimação da nação moderna; Entre o folclórico e o contemporâneo: indícios de distanciamento da atualidade dos povos originários; Indícios de valorização local sob leitura decolonial. Evidenciou-se que as apresentações artísticas e discursos reproduziram narrativas de exotização de povos originários, comumente associados ao “folclórico” ou ao “selvagem”, como sujeitos supostamente “beneficiados” pelo processo civilizatório. Nota-se representações de contínua busca por um ideal de modernidade relacionado ao Norte-Global. Os discursos de autoridades nas cerimônias da América Latina reafirmaram a capacidade do país/cidade-sede em realizar o evento. Observou-se, a partir do material analisado, que as cerimônias constituem espaços simbólicos de densidade cultural e política, nos quais se produzem e disputam narrativas sobre identidades, memórias e pertencimentos. Considerações finais: O Pan constitui-se como arena de produção simbólica que não apenas reflete, mas também tensiona representações da América como continente. Ao mobilizarem repertórios artísticos, discursivos e rituais, as cerimônias analisadas materializaram, no plano da produção simbólica, expressões de colonialidade e decolonialidade. A análise desses elementos, por sua vez, inscreve o esporte como um componente central da engrenagem social de produção de narrativas e sentidos, abrindo ao campo dos estudos do esporte a possibilidade epistemológica de uma relação outra com a percepção deste fenômeno, na qual os megaeventos são compreendidos como espaços de ressignificação e disputa simbólica. Palavras-chave: cerimônia de abertura; jogos pan-americanos; colonialidade; decolonialidade; movimento olímpico.
Introduction: Among Latin American intellectuals, the perspective of coloniality has emerged as a significant analytical framework for examining Eurocentric/U.S.-centric domination over the modern world-system, constituted through processes rooted in modernity and whose effects continue to shape contemporary social life. Sport, as well as events such as the Olympic Games and the Pan American Games, are products of the transformations and logics of the modern period. These events extend beyond athletic competition itself, mobilizing broader social, cultural, political, and symbolic processes. Among the constitutive components of these sport mega- events, opening ceremonies function as microcosms that produce meanings and representations of social life, offering multiple avenues for investigating the complexities of sporting phenomena. In light of this, the present study aimed to examine narratives and representations of coloniality and decoloniality in the opening ceremonies of the Pan American Games (Pan) from 2007 to 2023. Methodology: The opening ceremonies of the Pan were accessed through freely available audiovisual archives. Data cataloging considered ceremonial protocols, artistic and cultural performances, and the ritual and symbolic elements of the ceremonies. Based on Ginzburg’s evidential paradigm, traces of coloniality and decoloniality present in the ceremonies were investigated and subsequently examined through the lens of decolonial theory. Results and Discussion: Symbolic recurrences were identified, allowing the systematization of the findings into four dimensions: Symbolic formations of integration, harmony, and unity; Indications of peacefulness, hierarchization, and narratives legitimizing the modern nation; Between the folkloric and the contemporary: indications of the distancing of native peoples from the present; and Indications of local valorization through a decolonial lens. The analysis revealed that artistic performances and official discourses reproduced narratives that exoticized native peoples, who were commonly associated with the “folkloric” or the “savage” and portrayed as subjects supposedly “benefited” by the civilizing process. Representations of a continuous pursuit of an ideal of modernity associated with the Global North were also identified. The speeches delivered by authorities during ceremonies held in Latin America reaffirmed the capacity of the host country/city to successfully stage the event. Based on the material analyzed, it was observed that the ceremonies constitute symbolic spaces of cultural and political density, within which narratives concerning identities, memories, and senses of belonging are produced and contested. Final Considerations: The Pan constitutes an arena of symbolic production that not only reflects but also challenges representations of the Americas as a continent. By mobilizing artistic, discursive, and ritual repertoires, the ceremonies analyzed materialized, at the level of symbolic production, expressions of both coloniality and decoloniality. The analysis of these elements, in turn, positions sport as a central component of the social machinery responsible for producing narratives and meanings, opening up to the field of sport studies the epistemological possibility of an alternative relationship with the perception of this phenomenon, in which mega-events are understood as spaces of symbolic contestation and re- signification. Keywords: opening ceremony; pan american games; coloniality; decoloniality; olympic movement.

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CONDÉ, Augusto Fernandes. Face oculta?: (de)colonialidade nas cerimônias de abertura dos Jogos Pan-Americanos (2007-2023). 2026. 176 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. 2026.

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