“É o meu ambiente de trabalho”: saberes de profissionais da saúde e atendimento a adolescentes trans

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Fundação Oswaldo Cruz - Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca

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Nos últimos anos, a população transgênero, ou simplesmente trans, ganhou visibilidade positiva graças aos movimentos sociais e, juntamente, veio a luta pela garantia do acesso adequado e de qualidade aos serviços públicos e privados de saúde. Os estudos mostram inúmeras dificuldades que não só adultos trans enfrentam ao buscar um serviço de saúde, mas também as crianças e adolescentes. Somente em 2019, o Conselho Federal de Medicina integrou o atendimento às crianças e adolescentes trans no Brasil, contudo, sem a garantia de uma política pública, somente regulou a atuação médica no cuidado desta população. Até então, só um ambulatório fazia o atendimento desse público em todo país. Atualmente, temos em funcionamento pelo menos quatro serviços que atendem crianças e adolescentes trans, no entanto, as pesquisas apontam inaptidão dos profissionais de saúde no atendimento a pessoas trans. Este despreparo gera preconceito, falta de empatia e desconhecimento sobre suas demandas específicas, entre outros. Com o surgimento recente dos serviços especializados em crianças e adolescentes trans, bem como a formação insuficiente dos profissionais de saúde para esse atendimento, surge o questionamento: como se dá o processo de tomada de decisão, quais saberes sustentam a decisão do profissional de saúde que lida especificamente com essa população? Nesse sentido, esta pesquisa teve como objetivo analisar quais os saberes técnicos e bioéticos que guiam os profissionais de saúde que atuam em dois serviços públicos da região Sudeste do Brasil. Ambos os centros estão voltados ao atendimento de adolescentes trans. Foram entrevistados profissionais de saúde que atendem em ambulatórios especializados em adolescentes trans. Foi feita análise qualitativa a partir da análise de conteúdo de Bardin dos dados das entrevistas; análise dos conflitos éticos identificados nas entrevistas; e a discussão dos resultados com a teoria da Bioética de Proteção. A amostra foi composta por profissionais de saúde que atuam nos ambulatórios que atendem adolescentes trans. Após análise qualitativa dos dados, identificou-se conflitos, facilidades e dificuldades no atendimento a adolescentes trans em ambulatórios especializados, que foram separados em cinco classes: (1) dinâmica do atendimento e envolvimento das famílias, (2) impactos sociais e violências contra pessoas trans, (3) desafios nos processos de hormonização, (4) questões de gênero e identidade, e (5) formação profissional específica. Estes dados foram apresentados e discutidos no artigo intitulado A perspectiva dos profissionais de saúde no atendimento a adolescentes trans: uma análise qualitativa. Os dados qualitativos permitiram ainda identificar conflitos éticos durante o atendimento, que foram analisados sob a ótica da bioética de proteção no artigo intitulado Conflitos éticos no atendimento a adolescentes trans: uma análise sob a óptica da Bioética de Proteção. Não obstante, cabe salientar que crianças e adolescentes trans ainda não têm direito assegurado a atendimento, visto que não há políticas de saúde voltadas para esta população e, o que temos, é uma regulamentação da atividade médica direcionada para este público. Tal assistência exige uma formação profissional capacitada tanto nos aspectos biomédicos quanto em aspectos da bioética. Ademais, a formação de profissionais de saúde para atendimento à população trans ainda é um desafio e envolve várias questões bioéticas. Identificar esse conteúdo e estabelecer novas discussões contribuirão para um atendimento mais capacitado, humanizado e empático. Palavras-chave: pessoas transgênero; saúde do adolescente; profissionais de saúde; capacitação profissional; bioética.
In recent years, the transgender population, or simply trans, has gained positive visibility thanks to social movements and, along with it, the fight to guarantee adequate and quality access to public and private health services. Studies show numerous difficulties that not only trans adults face when seeking health services, but also children and adolescents. Only in 2019, the Federal Council of Medicine integrated care for trans children and adolescents in Brazil, however, without the guarantee of a public policy, it only regulated medical practice in caring for this population. Until then, only one outpatient clinic provided care for this population in the entire country. Currently, we have at least four services operating that serve trans children and adolescents, however, research points to the inability of health professionals to care for trans people. This lack of preparation generates prejudice, lack of empathy and ignorance about their specific demands, among others. With the recent emergence of specialized services for trans children and adolescents, as well as the insufficient training of health professionals for this type of care, the question arises: how does the decision-making process occur, and what knowledge supports the decision of the health professional who deals specifically with this population? In this sense, this research aimed to analyze what technical and bioethical knowledge guides health professionals who work in two public services in the Southeast region of Brazil. Both centers are focused on providing care to trans adolescents. Health professionals who work in outpatient clinics specializing in trans adolescents were interviewed. Qualitative analysis was performed using Bardin's content analysis of the interview data; analysis of the ethical conflicts identified in the interviews; and discussion of the results using the theory of Bioethics of Protection. The sample consisted of health professionals who work in outpatient clinics that care for trans adolescents. After qualitative analysis of the data, conflicts, facilities, and difficulties in caring for trans adolescents in specialized outpatient clinics were identified, which were divided into five classes: (1) dynamics of care and family involvement, (2) social impacts and violence against trans people, (3) challenges in the hormone replacement processes, (4) gender and identity issues, and (5) specific professional training. These data were presented and discussed in the article entitled The perspective of health professionals in caring for trans adolescents: a qualitative analysis. The qualitative data also allowed us to identify ethical conflicts during care, which were analyzed from the perspective of protective bioethics in the article entitled Ethical conflicts in the care of trans adolescents: an analysis from the perspective of protective bioethics. However, it is worth noting that trans children and adolescents still do not have the right to care, since there are no health policies aimed at this population and, what we do have, is a regulation of medical activity aimed at this public. Such care requires professional training in both biomedical and bioethical aspects. Furthermore, the training of health professionals to care for the trans population is still a challenge and involves several bioethical issues. Identifying this content and establishing new discussions will contribute to more qualified, humanized and empathetic care. Keywords: Transgender persons; adolescent health; health personnel; professional training; bioethics.

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CASTRO, Isabela Ferreira de. “É o meu ambiente de trabalho”: saberes de profissionais da saúde e atendimento a adolescentes trans. 2025. 96 f. Tese (Doutorado em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva) - Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Rio de Janeiro. 2025.

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